Historias de Pescadores

Histrias de Pescadores (1999) por Lourivaldo Perez Baan

A Casa do Mago das Letras
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HISTRIAS DE PESCADORES

Lourivaldo Perez Baan

NDICE

HISTRIAS, APENAS HISTRIAS
E EU ACREDITEI
PESCADOR SUBURBANO
UMA QUESTO DE OPORTUNIDADE
UMA QUESTO DE CONFIANA
SORTE DE PRINCIPIANTE
MEU PEIXE INESQUECVEL
A INFLUNCIA DA LUA

HISTRIAS, APENAS HISTRIAS

      A sabedoria popular afirma que todo pescador  um mentiroso. Existem muitas 
histrias a respeito das histrias de pescadores. Muitas delas, inclusive,
inventadas por quem nunca pescou, apenas para desprestigiar a classe. Intrigas da 
oposio, com certeza.
     Qualquer pescador consultado vai afirmar que ainda no pescou o peixe que 
desejaria pescar, mas j pescou alguns de bom tamanho. Com certeza vai dizer
que bom mesmo foi um que lhe escapou. E que pescador j no perdeu aquele peixe 
enorme, que arrastou linha e fez a carretilha cantar? Isso acontece a todo
momento. A emoo, o desconhecido l no fundo, na ponta do anzol, tudo isso faz 
com que, muitas vezes, se tenha a falsa impresso de que o peixe fisgado
 enorme. Quando ele  tirado da gua, a impresso se desfaz. Quando ele consegue 
escapar, a impresso permanece. No fim do dia, no ficam as histrias
dos peixes pescados, mas daqueles que no o foram.
      O pescador  um ser introvertido, em comunho com a natureza. Na espera, em 
silncio, olhando o rio, ouvindo os barulhos ao seu redor, ele se torna
introspectivo. Pensa, sonha e imagina. A mente divaga. Espairece. Desliga-se do 
mundo. Se o peixe belisca, ele se concentra, com a vara na mo, pronto
para a fisgada. Tenso e deliciado ele espera pela briga.
      Ali, naquele momento, ele pode at pensar nas histrias. Pode at inventar as 
histrias que contar. Histrias inventadas, possivelmente, mas vividas
de alguma forma, seja na imaginao daqueles momentos, seja por uma outra 
pessoa, em algum outro lugar do planeta.
     Histrias maravilhosas, que fazem da pesca mais do que uma diverso, um 
estado de esprito e de bom humor, no essas histrias inventadas apenas para
aborrecer os verdadeiros pescadores, como aquela do piloteiro inconveniente, que 
diante das esposas dos pescadores, fez aquela clebre observao, imaginando
que estava diante de mais um grupo de acompanhantes?
     - Que mulherada feia vocs trouxeram desta vez, doutor!
      bvio que essa piada no foi vivida por um grupo de pescadores, simplesmente 
porque pescadores no levam acompanhantes em suas pescarias e muito
menos grupos de esposas. Seria uma heresia, no  verdade?
     E aquela histria do sujeito que pescou uma lata de querosene, onde um pintado 
entrara ainda filhote, crescendo ali dentro e ocupando toda a lata.
 muito interessante, mas tambm foi criada por algum que nunca pescou. 
Qualquer pescador, mesmo amador, sabe que pintado no gosta de querosene. Se fosse
uma lata de gasolina, a sim!
      E a do sujeito que perdeu o relgio de corda na beira do rio e o encontrou no ano 
seguinte, funcionando perfeitamente, enroscado num tronco. Um galho
debruado sobre o rio era agitado pela gua e providencialmente dava corda no 
relgio.  claro que isso jamais aconteceria com um pescador, pois ele nunca
levaria um relgio para sua pescaria. Quem precisa de um, quando a natureza diz 
quando  hora de ir embora, quando  hora de acordar para pescar, quando
 hora de comer?
     As verdadeiras histrias so outras. Como a do pescador que fazia seus prprios 
giradores e encastoados para suas pescarias, tornando-os marca registrada
sua. No passava um ms sem ir para o rio, pescar. Fisgou muito. Tirou bastante. 
Perdeu muitos. Num acidente, porm, ficou paraplgico e teve de abandonar
seu maior passatempo, a pescaria, no sem antes ter iniciado seu filho nesse mister.
     Cinco anos depois da ltima pescaria do pai, o filho estava pescando num 
remanso e a puxada foi brutal. Por quase uma hora ele travou uma batalha sem
igual com uma pirarara das grandes. Quando conseguiu, finalmente, domin-la e ia 
retirar-lhe o anzol, percebeu que na boca do peixe havia um outro, j
encravado. Reconheceu logo o encastoado.
     Quando voltou para casa, mostrou-o para o pai.
      - Foi no Remanso do Cachorro Louco? - indagou o velho.
      - Sim, l mesmo, pai - respondeu o filho.
      - Viu? Eu no falei que era uma pirarara, mas que no era das grandes ainda?

E EU ACREDITEI!

      A pescaria  algo que entra no sangue, depois que a pessoa toma gosto por ela. 
A emoo e a adrenalina, no momento de uma fisgada deve ter o mesmo
significado que tem para um atleta ganhar uma prova ou um piloto subir ao pdio, 
aps vencer uma corrida.
      H, nessas atividades, um certo ritual envolvido, que comea nos treinos, na 
preparao, na tenso que antecede uma disputa, da mesma forma que ocorre
na preparao de uma pescaria. A emoo comea no momento em que ela fica 
acertada e, a partir da,  s um crescendo de expectativas.
      A primeira preocupao  revisar a tralha, examinar as linhas, completar o 
material. Selecionar as varas que sero usadas, limpar e lubrificar os
molinetes, ver se todos os apetrechos esto prontos. Preparar os anzis, os giradores, 
os encastoamentos, concentrado, imaginando os peixes que sero pescados,
as emoes que sero vividas.
      O dia chega, afinal. Enfrentar a viagem, por mais longa e cansativa que seja, no 
abate um pescador. O difcil  controlar a ansiedade, conter a expectativa.
Se a pescaria  feita em turma, muito melhor. H sempre os companheiros para as 
conversas e para as brincadeiras.
      A chegada  um deslumbramento e a ansiedade atingiu o auge. O pescador mal 
v a hora de ir para o rio, libertar a linha, lanar o anzol e iniciar
a pesca. Quando tudo isso  feito com cuidado,  s emoo, adrenalina e lazer por 
um bom tempo.
      A menos que voc seja do tipo azarado e tenha decidido fazer uma pescaria com 
um bando de pirangueiros, que alugaram um nibus que ficaria melhor
em um museu, mas que aparenta beleza debaixo da grossa camada de massa e tinta 
que esconde seus remendos e buracos.
      A viagem at que  interessante, pois h o jogo de truco para passar o tempo. 
Tirando os dois pneus que furaram, o motor que ferveu e o guarda rodovirio
que a custo foi convencido de que a documentao do nibus seria regularizada, to 
logo ele retornasse, o resto foi tranqilo. Perder no truco e agentar
gozao faz parte do jogo e no h como fugir disso.
      Voc chega, finalmente, morto de cansado, com o ouvido doendo de tanto ouvir 
a palavra truco durante a viagem. Uma cama seria timo, mas algum se
esqueceu de fazer a reserva, segundo o responsvel pelo hotel, ou se esquece de 
anotar a reserva, segundo o motorista do nibus que tambm  o dono dessa
vavatur de araque.
      Aps girarem pelas redondezas, conseguem acomodao numa penso, sem ar 
condicionado, sem telas nas janelas, sem geladeira. Que importa isso? Afinal,
pescador que  pescador no vai atrs dessas mordomias. O negcio  o rio, a pesca, 
o lazer, a emoo. Isso compensaria tudo, se os motores levados funcionassem
e se os barcos no tivessem alguns furos, que tiveram de ser remendados com um 
pouco de pacincia.
      A manh vai avanando e voc, para matar o tempo, vai para a beira do rio, 
observar as guas. Quem tinha de sair para pescar, h muito j est pescando.
Voc coa os calombos produzidos pelos mosquitos na noite anterior e fica 
imaginando como vai ser emocionante entrar naquele rio, lanar o anzol, pescar
um grande peixe. Isso lhe devolve o nimo. Pouco antes do almoo os barcos ficam 
prontos e os motores roncam. O pessoal resolve comer primeiro, depois
dar uma volta para conhecer o rio.
      - Conheo um pesqueiro sensacional! - diz o empresrio dessa aventura, e para 
l vai todo mundo, passar a tarde toda alimentando piranhas ou pegando
um e outro peixinho.
      Desnimo generalizado!
      - Amanh vamos para um novo local. L eu sei que tem peixe, vocs vo ver - 
diz o empresrio, devolvendo a todos a animao.
      No dia seguinte, todo mundo para um novo local. Nada.  tarde mudam-se para 
outro. Nada. No dia seguinte, novas tentativas. Nada. Absolutamente nada.
No h peixes nesse rio.
      Hora de embarcar para casa. O aprendiz de guia turstico anima todo mundo.
      - Gente, na prxima vamos para uma outra localidade que fiquei sabendo. 
Dizem que esto tirando dourados de vinte quilos e pintados de cinqenta!
      Voc olha para ele como todo bom pescador.
      E acredita!

PESCADOR SUBURBANO

      Suburbano, classe mdia, careta, estressado, srio candidato a uma ou duas 
pontes de safena, recebeu o diagnstico definitivo de seu mdico:
      - Ou voc relaxa, ou voc morre!
      Ele demorou muito tempo para entender o que o mdico havia dito. A palavra 
relaxar no fazia parte do seu vocabulrio.
      - Como, doutor? -indagou ele, pateticamente.
      - Pescaria! J pensou em pescaria? - sugeriu o mdico, um aficcionado dessa 
arte.
      Ele voltou para casa com uma srie de anotaes e recomendaes que o mdico 
fizera. A idia exercia um certo fascnio. Meter-se numa aventura, enfrentar
um rio desconhecido e pescar um grande peixe. No era assim uma idia de toda 
m.
      Ficou remoendo-a o tempo todo naquele dia e no dia seguinte, quando foi para o 
trabalho. Estava tenso. Precisava mesmo relaxar. Por que no a pescaria?
Afinal, no tinha mais preparo fsico para jogar um futebol, muito menos para 
praticar qualquer outro esporte. A pescaria seria interessante. Sentar ali
e esperar. Fisgar o peixe. Brigar com ele, como brigavam os apresentadores 
daqueles programas de pesca na tev, que ele passou a assistir religiosamente.
      Um dia passou diante de uma loja de artigos de caa e pesca. Parou o carro e 
caminhou, olhando toda aquela parafernlia que ele desconhecia. Viu uma
faca de caa digna de qualquer rambo da vida. Segurou-a. Prendeu-a ao cinto. 
Imaginou-se um tarzan, um jim das selvas moderno.
      O vendedor mostrou-lhe as varas de fibra de carbono, os molinetes, as 
carretilhas, as linhas modernas, as iscas artificiais de maior sucesso no momento.
Tudo aquilo comeou a deslumbr-lo, tent-lo. Comprou uma revista especializada 
em pesca e levou-a para casa. Leu de uma s vez, num s flego. O gosto
pela pesca se instalava em suas veias. Ele queria experimentar aquelas mesmas 
emoes que os outros sentiam e to bem descreviam na revista ou demonstravam
nos programas de televiso.
      Passou um dia pela loja de artigos de pesca.
      - Se eu resolvesse pescar neste final de semana, o que eu precisaria levar 
comigo? - indagou ao vendedor.
      - O que voc tem em sua tralha? - devolveu o rapaz.
      - Minha tralha? No tenho tralha nenhuma!
      - Ento deixa comigo! - falou o vendedor, vibrando por aquela que seria sua 
melhor venda durante todo o ms.
      Ele quis comear pela faca de caa. O vendedor conseguiu vender a caixa para 
levar a tralha. Depois um molinete e uma carretilha. Era preciso experimentar
os dois e ver com qual ele se daria melhor. Quatro varas, de tamanhos diferentes. 
Meia dzia de carretis de linha. E enquanto vendia, o vendedor ensinava
os ns principais, que ele aprendia rpido.
      Vendeu iscas artificiais. Vendeu uma bota especial para pesca, com solado 
antiderrapante. Vendeu uma jaqueta cheia de bolsos e compartimentos para
levar tralha. Alicates, pegadores, puxadores, fisgas, anzis pequenos, mdios, 
grandes. Repelente. Um lampio a gs. Uma lanterna de seis pilhas fantstica.
Um colete salva-vidas. Um flutuador para prender na cintura. Um canivete suo 
com bainha. Um tubo de PVC para transportar as varas, com ala e bandoleira.
      Com toda essa tralha no carro ele voltou para casa. Preparou seu material. 
Trocou idias com o dentista, que lhe deu muitos conselhos. Recomendou-lhe
cuidado. Uma pescaria pode ser perigosa.  preciso ateno.
      Ele ouvia tudo atentamente, registrando. J se sentia melhor, relaxando, 
enquanto, concentrado, ensaiava os ns e montava os anzis nos giradores
e nos encastoamentos. A esposa exultou. Era a salvao para ele, afinal. Ela deu 
graas e ligou para o mdico, agradecendo-o pela idia.
      No domingo ele foi pescar, cheio de expectativa e emoo. E quer acreditem ou 
no, logo na primeira fisgada arrancou da gua, aps uma briga violenta,
um pacu de exatos dez quilos de pura briga, de energia, de resistncia.  a pura 
verdade. Quem duvidar,  so ir ver a fotografia no Pesque-Pague do Pacu.
Ficou tima!

UMA QUESTO DE OPORTUNIDADE

      No princpio todos diziam que os dois formavam um casal perfeito e que seu 
casamento duraria a vida toda. Ningum duvidava disso. Bastava ver como
os dois, aps seis meses de casamento, se olhavam e se tratavam como dois 
adolescentes apaixonados.
      Aps dois anos de casamento, ele ainda abria a porta do carro para ela e lhe 
mandava flores nas datas importantes. Saiam para jantar com freqncia
e recebiam amigos. Todos no se cansavam de elogiar o amor que os unia.
      - Isso  amor para a vida toda! - afirmavam, sem pestanejar.
      No fim do terceiro ano, sem perder o romantismo, ele passou por um perodo de 
intenso stress, fazendo a pequena empresa dos dois crescer. Umas dores
aqui, outras ali e foram juntos consultar um mdico, assustados.
      - Seu problema  o mesmo de muitos outros homens na sua idade e com a sua 
atividade. Voc passou por um perodo bravo de stress e precisa relaxar
agora - sentenciou o mdico.
      - Relaxar? Mas como? Agora que a empresa est estruturada e pronta para 
crescer... - ia protestando ele.
      - Patro morto no faz empresa crescer - cortou-o mdico.
      O casal trocou olhares, sentindo que o problema poderia ser pior, se no fossem 
cuidado.
      - Est decidido: eu fico cuidando da empresa e voc vai relaxar. Que tal aceitar 
o convite daquele seu amigo para ir at o rancho dele, no Mato Grosso,
pescar?
      - Eu? Pescar?
      - Excelente idia! Est receitado! - determinou o mdico.
      Ele nada sabia de pescaria. Consultou amigos, leu livros, viajou pela Internet  
procura de informaes e, pouco a pouco, foi pegando gosto e se interessando
pelo assunto. Em menos de uma semana j conseguira descobrir tudo que precisava 
para fazer uma boa pescaria, alm de combinar com o amigo uma visita ao
rancho dele.
      Foi. Incomodado por deix-la sozinha cuidando da empresa, mas foi. Afinal, 
patro morto no fazia empresa crescer. Marido morto no poderia, obviamente,
fazer uma esposa feliz.
      No primeiro dia, tudo aquilo lhe pareceu aborrecido. Mosquitos, sol de rachar, 
iscas, minhocas, minhocuus, tugiras, tudo isso passava por suas mos
sem muito sentido. Nos livros e nas palavras dos amigos aquilo tinha um outro 
sentido.
      - Fique calmo, meu caro. Logo voc vai pegar o esprito da coisa - alertou-o o 
amigo, percebendo a impacincia dele.
      E o esprito da coisa baixou, na forma de um pacu de uns quatro a cinco quilos, 
que puxou a linha da vara com tanta energia que a carretilha cantou
como ele nunca imaginou que ela poderia cantar. A briga foi inesquecvel. Ele viveu 
cada momento dela com uma intensidade jamais experimentada antes em
qualquer outra atividade.
      Resultado: ficou scio do amigo no rancho. Ficou viciado em pescaria. Seria 
timo para todos, se ele no pegasse as tralhas a cada final de semana
e rumasse para o rancho, onde ficava no sbado e no domingo. E se o assunto de 
suas conversas no fosse apenas sobre pescaria.
      Quanto a ela? Bem, ela achou isso bom no incio, depois foi se sentindo 
preterida e, quando deu por si, estava se sentindo terrivelmente s, por seu
marido a traa com a maldita pesca.
      O que todos jamais esperavam ver acontecer, materializou-se.
      - Quero a separao! - decidiu ela.
      Atnito, ele nem chegou a entender o verdadeiro significado disso. Quis 
argumentar, quis indagar, mas ela estava resoluta. No tinha alternativa,
a no ser concordar.
      - No sei o que vou fazer da vida. Pode ficar com a empresa. Eu vou tentar pr a 
cabea no lugar - disse ele, e l se foi, com mala e cuia, para o
rancho. - Pode cuidar de tudo com o advogado. Eu assino o que for preciso.
      Os amigos ficaram inconsolveis, mas nada puderam fazer por eles. Trinta dias 
depois ela foi at o rancho com o advogado, levando os papis para ele
assinar. Quando chegou, ouviu barulho, gritos de seu futuro ex-marido,  beira do 
barranco, com a vara na mo.
      Assustada, deixou o advogado para trs e correu at l.
      - O que foi? - quis ela saber, com o corao nas mos.
      - Acho que  um dourado... Dos grandes... - falou ele, esbaforido. - Puxa,  o 
maior de todos!
      Ele continuou trabalhando o peixe. Nisso uma outra vara, num descanso  beira 
do barranco, dobrou a ponta de tal forma que parecia que ia se quebrar.
      - Na outra vara... Outro peixe - gritou ele.
      Ela agiu instintivamente. Apanhou a vara e fez o movimento correto de fisgada. 
Sentiu a carretilha cantar e o peixe tomar linha. Comeou a rir. Seu
corpo tremia todo. Sua boca secou-se. Os msculos de seus braos doeram. Aquele 
canto da carretilha, o peso do peixe, a ponta da vara, a linha zumbindo,
enquanto cortava as guas do rio, tudo isso foi novo para ela, mas tremendamente 
emocionante.
      -  peixe! - gritou ela.
      - Sim,  peixe! E dos grandes! - respondeu ele.
      Ela no sabia o que estava acontecendo com ela, mas a adrenalina flua pelo seu 
corpo em correntes atordoantes.
      - Faa assim! - disse ele, orientando-a como manejar a vara e a carretilha.
      Ela o imitou. Puxava a vara lentamente, com a ponta dobrada e estremecendo 
aos movimentos do peixe, depois baixava, recolhendo a linha. Ele a olhou
nos olhos, da forma como costumava olh-la em outros tempos. Ela correspondeu 
ao olhar. Eles comearam a rir. E riram enquanto recolhiam o peixe e se abraavam.
E riam, enquanto movimentavam as carretilhas e se beijavam.
      Quem no achou muita graa em tudo isso foi o advogado...

UMA QUESTO DE CONFIANA

      Concluram as netas Laura e Denise que aquela pescaria fora a responsvel pela 
manuteno do casamento dos dois velhinhos, que completavam agora suas
bodas de ouro. Cinqenta anos de unio, um ao lado do outro todo o tempo. No se 
largavam para nada e tudo parecia ter se acentuado depois daquela pescaria.
E olha que isso acontecera logo nos primeiros anos do casamento.
      Para a festa vieram parentes de todas as partes do Brasil. Irmos do Mato 
Grosso, de So Paulo e de Rondnia. Primos do Paran, de Minas e do Esprito
Santo. Tios do Rio Grande do Sul, do Amazonas, do Cear e da Baa. Gente de 
todos os tipos, com diferentes sotaques, unidos pelo mesmo sobrenome, prestigiando
aquela ocasio memorvel.
      Os comentrios eram todos do mesmo tipo: onde, nos dias atuais, de poderia 
encontrar um amor como aquele? No se largavam, estavam sempre juntos,
companheiros para todas as situaes e ocasies. Em tempos de casamentos to 
efmeros, os dois velhinhos eram um exemplo para os jovens, repetiam os mais
velhos.
      As netas, porm, sabiam de segredos que os adultos no sabiam. Segredos que o 
velhinho contava, intercalando histrias de pescaria, de caadas e de
aventuras dos seus tempos de jovem.
      Laura, a neta preferida, foi quem percebeu o fato. Comentou com sua prima 
Denise e as duas foram, aos poucos, arrancando ao velhinho a verdadeira
histria daquela unio. Aquela pescaria havia sido a responsvel, no havia dvidas.
      Quando chegaram a essa concluso, trataram de confirm-la junto  av. E isso 
no foi fcil de ser conseguido.
      - Fale mais sobre as aventuras do vov - pediram as duas, certa noite, quando a 
velhinha parecia muito disposta a lembrar o passado e a contar histrias.
      - Seu av era terrvel... Caador, pescador, desbravador, pioneiro. Tinha o 
sangue quente e formiga nos ps. No parava quieto.
      - E ele era bonito, vov?
      Ela riu, fechando os olhos e, por instantes, um brilho intenso pareceu iluminar 
seu rosto, embalado por aquela recordao.
      - Ah, era! Era o que vocs chamam hoje de um gato!
      - Verdade?
      - E ele era muito namorador? - perguntaram e o rosto da velhinha mostrou 
severidade.
      - Onde j se viu perguntar isso de seu av? No tem respeito, no?
      No foi daquela vez que conseguiram a resposta. Mas insistiram. Laura e Denise 
eram teimosas, pareciam ter herdado o sangue quente e teimoso do av.
      E a histria foi se construindo aos poucos, com a ajuda dos dois velhinhos e de 
outras informaes que foram sendo colhidas. Era uma histria interessante,
de amor, cime e cuidados.
      A idia foi de Laura: prestar uma homenagem ao casal, na festa de bodas de 
ouro, relembrando a histria da pescaria, mas de uma forma que apenas eles
soubesse do que se tratava, j que os adultos nem de perto podiam imaginar o que 
havia realmente acontecido.
      - E como vamos fazer isso? - quis saber Denise.
      - No, mas de uma forma que os dois se lembrem da histria e da sua 
importncia, sem que os demais parentes tenham conhecimento dela. Acho que ningum
mais precisa saber dela, no acha?
      - Sim, mas como?
      - Bom, o que sabemos  que depois daquilo que aconteceu, a vov jamais 
deixou o vov ir pescar, caar ou viajar para onde quer que fosse, sem que
ela fosse junto. Com isso foram se tornando to apegados e to companheiros que 
acabou nisso que a est hoje. Acho que passaram por tantas aventuras que
se descobriram totalmente e se uniram mais do que o normal por isso.
      As duas pensaram por algum tempo.
      - Que peixe que era mesmo? - indagou Laura, com uma expresso marota no 
rosto.
      - Era um pintado, no era? Por que? Teve uma idia?
      - Sim, e acho que sei o que devemos fazer. Para comear, vamos ter que realizar 
uma pesquisa histrica.
      - Pesquisa histrica?
      - Sim, temos que descobrir uma coisa.
      Passaram alguns dias na biblioteca municipal, consultando velhos alfarrbios 
que contavam a histria da cidade. Foi com alegria que descobriram a
preciosa informao que procurava. A partir da, foi s tomar algumas providncias 
simples e estava pronta a homenagem dos netos ao casal de idosos.
      No dia da festa, aps a cerimnia de confirmao dos votos de casamento, foram 
todos para o almoo, feito num clube da cidade. As homenagens se sucederam,
at o momento de servir a comida. As netas se aproximaram, trazendo uma bandeja 
coberta por uma redoma.
      - Isto  nossa homenagem, para que vocs sempre se lembrem do motivo dessa 
unio to forte entre vocs dois - disse Laura, removendo a bandeja.
      Ali estava um pintado de bom tamanho, assado, ostentando no lombo o carimbo 
inconfundvel da antiga Peixaria So Paulo. A av olhou para a neta, depois
para o av, que fez cara de maroto.
      Lembrava-se daquela farra que fizera com uns amigos e do peixe que comprara 
para esconder sua falta. Na pressa, esquecera de apagar o carimbo da peixaria.

SORTE DE PRINCIPIANTE

      No que ela gostasse de pescaria. Na verdade, alm de ser uma principiante no 
assunto, no incio tinha horror s minhocas e s iscas vivas de um modo
geral e um medo tremendo das artificiais, cheias de garatias, que pareciam vivas e 
ansiosas para espet-la. Tinha, no entanto, desde o princpio, assumido
a firme inteno de conquistar Ismael e a nica forma que descobriu, no fim de 
todas as suas tentativas, foi aquela.
      Por ele estava decidida a tudo. Desde que o conhecera, sua vida passou a ser 
uma dedicao constante a ele, procurando formas de aproximao ou de
chamar a ateno dele. Foi por isso que fez um curso de mecnica de motos e 
aprendeu a sujar as mos de leo e a ficar cheirando a gasolina, com pistes,
bielas, bronzinas, carburadores, baterias e um monte de outras peas que antes lhe 
eram um mistrio e, agora, eram apenas partes de um veculo.
      No comeo teve de suportar muita gozao dos outros estudantes, todos homens, 
rapazes bonitos que at poderiam ser interessantes, se ela no estivesse
fixada num deles em especial, justamente o que no lhe dava a mnima ateno. 
Mesmo que, para isso, ela tivesse sacrificado suas unhas e a suavidade de
suas mos, mexendo com chaves, parafusos e engrenagens.
      - Sabe qual  o seu erro? - comentou um dia uma amiga. - Voc est sendo 
oferecida demais. Ele se sente superior e jamais lhe dar ateno.
      - E por qu?
      - Respeito. Quando voc fizer com que ele a respeite, acho que conseguir a 
ateno dele. Percebeu?
      Pensou muito no conselho da amiga e chegou  concluso que estava mesmo 
sendo muito oferecida. Afinal, vivia dentro da casa dele. Conhecia todos os
seus familiares e era considerada quase como uma filha. Tinha liberdade para 
dormir l e j havia feito isso algumas vezes, na esperana de conseguir dele
alguma ateno, mas tudo fora em vo. No fim das contas, a amiga parecia mesmo 
ter toda a razo e foi por esse motivo que ela chegou ao que ele mais gostava:
a pesca. Para conseguir o respeito dele, decidiu ser melhor pescadora do que ele e, 
para isso, foi pedir a ajuda de um amigo especial, o Takahashi, um
nissei boa-pinta muito alegre e falador.
      - Tet, para que voc quer aprender a pescar?
      - Porque acho que  divertido - mentira ela.
      - Mulher e pescaria no do muito certo. Tem que pegar na vara, tem que iscar 
minhoca, tem que tirar o peixe do anzol... - ia dizendo ele.
      - No importa, Takahashi. Eu quero aprender...
      Apesar de no entender todo aquele interesse, mas diante da firme deciso da 
amiga, Takahashi decidiu passar para ele todo o conhecimento milenar
da arte da pesca, passado em sua famlia de pai para filho desde os tempos 
ancestrais.
      Nas tardes ensolaradas do vero, Tet e o amigo iam para um pesque-pague, 
onde ele lhe dava verdadeiras aulas sobre o assunto. Em pouco tempo ela
aprendeu, graas ao esforo e ao interesse, prestar ateno aos sinais que a natureza 
lhe dava, importantes para decidir que tipo de isca usar. Se o tempo
estava chuvoso ou ensolarado, se estava frio ou no, se havia vento ou calmaria, se a 
gua estava limpa ou suja, tudo isso e muito mais eram indcios que
determinavam o tipo de pesca a ser feita.
      - Outra coisa importante  saber o tipo de peixe que ir pescar. Alguns voc nem 
precisar se preocupar em fisgar, porque so gulosos e engolem a
isca com anzol e tudo. Outros voc ter que ferrar direitinho, ou perder a 
oportunidade de captur-lo. Alguns  s recolher. Outros voc ter que brigar
com eles at cans-los, pois so esportivos e brigadores. H alguns que...
      E l foi ele, passando tudo que sabia para ela, que aprendia com uma voracidade 
incrvel, sonhando com o dia em que daria uma lio em Ismael.
      Esse dia, finalmente, chegou. A famlia dele decidiu fazer uma pescaria e um 
piquenique num rio das vizinhanas e ela, como era praticamente da famlia,
foi convidada e no recusou. To logo soube do acontecimento, correu  procura de 
Takahashi, que lhe deu todas as informaes sobre aquele local, sobre
aquele rio, sobre os peixes dali, sobre iscas, anzis, molinetes, horrio e tudo o mais 
que ela precisaria para fazer uma boa imagem.
      No dia do piquenique, l foi ela, muito segura de si. Ismael, como sempre, 
manteve distncia dela, mais preocupado em preparar sua tralha e iniciar
logo sua pescaria. Com uma segurana incrvel, Tet logo preparou a sua. Antes de 
escolher anzol e isca, verificou o tempo, testou a temperatura da gua,
observou os ventos, a correnteza, o ceva e logo estava arremessando sua linha para 
sua primeira pescaria de verdade.
      Aps isso, ficou observando como Ismael era desastrado e nada sabia de pesca. 
Estava usando o anzol errado, a isca errada, um molinete que era um
verdadeiro guindaste. Quando ele jogou sua isca na gua, com uma emoo sem 
tamanho, Tet sentiu a puxada na linha, coisa brava mesmo. No momento seguinte,
o carretel do molinete cantava, diante de um Ismael abobalhado, que comeou a 
gritar ordens como um destemperado.
      - Solta a frico... Levanta a ponta da vara... No deixa ele ir para as pedras...  
dos grandes, Tet...  dos bons... Deixa ele cansar... - falava
ele, correndo de um lado para outro, e ela ficou olhando para ele como se no o 
reconhecesse, tentando descobrir o que vira naquele sujeito.
      Para encurtar o assunto, ela hoje est namorando o Takahashi e ambos tm se 
divertido muito nas pescarias que fazem juntos.

PEIXE MEU INESQUECVEL

      Quando samos de Cuiab, era um dia triste para o pas e para o mundo. Ayrton 
Senna estava fazendo sua ltima viagem e a consternao era geral. Para
ns, meu filho e eu, que tambm acordvamos toda manh de domingo na 
expectativa de assistir mais uma corrida, aquele dia significou para ns o fim de
todo o interesse pela Frmula 1.
      Perdamos mais do que um dolo, perdamos um smbolo de nossa brasilidade, 
algum que fazia questo de empunhar uma bandeira verde-amarela e levant-la
bem alta como que gritando o seu orgulho interior e oferecendo a todos ns, 
brasileiros comuns, a satisfao de mais uma vitria.
      Aquela pescaria improvisada, a primeira que fazamos no Mato Grosso serviu, 
de certa forma, para abrandar a tristeza daquele dia. Mas foi uma aventura
que com certeza repetiramos sempre. Nosso guia foi meu irmo, que reside h 
muitos anos naquela cidade e que dizia saber tudo sobre pescarias: como todo
pescador, era um mentiroso e isso logo descobriramos.
      Deixamos Cuiab de nibus com destino a Baro de Melgao, onde desceramos 
o rio at as baas, famosas por serem uma espcie de ponto de engorda dos
peixes da regio.
      Para ns tudo era novidade. O nibus deixou a rodovia principal e tomou uma 
estrada que passava por um trilho nos alagadios, na direo de Santo
Antnio do Leverger e, dali, para Baro de Melgao, onde chegamos no horrio do 
almoo.
      A primeira providncia foi descobrir o que faramos a partir dali. Uma garoto 
nos indicou um bar, cujo proprietrio tinha um irmo que tinha um barco
e cujo pai tinha um alojamento no meio de uma baa e onde poderamos ficar 
hospedados.
      Fomos at l. Entre goles de cachaa com n-de-cachorro, que dava  bebida um 
tom avermelhado e delicioso, combinamos a aventura. Compramos alguns
mantimentos para levar, depois fomos almoar num restaurante  beira do rio onde 
misria era uma palavra desconhecida. Peixes servidos de todas as formas,
bife, salada, arroz, feijo, mandioca, batata e coisas que nunca tnhamos visto juntas 
numa s mesa.
      Pouco mais tarde, apareceu o Z Floresta, dono do bote que nos levaria at o 
alojamento e que nos acompanharia nas pescarias que faramos nos prximos
dois dias.
      Levvamos gua, macarro, massa de tomate, batata, sal e mais alguns 
ingredientes para preparar lautas refeies  base dos peixes que pescaramos.
      Rapidamente o barquinho foi descendo o rio e para meu filho e eu tudo era 
deslumbramento. Aquele rio enorme, aquela paisagem inslita e verdejante
e, principalmente, aquela expectativa interior que aumentava,  medida que 
rumvamos para a Baa de X-Kolor, passando pela Baa de S Marina e outras
nomes cuja grafia no conseguimos descobrir qual era.
      Aps quase duas horas de viagem, entrando por um brao de rio, samos 
diretamente numa enorme baa, cercada de rvores por todos os lados. Anoitecia.
Nosso piloteiro se guiava pelo vulto das rvores e no sei como encontrou nosso 
alojamento naquela escurido.
      Assim que chegamos, o motor foi ligado e a energia eltrica deu um ar de 
civilizao ao local rstico, porm, com o conforto necessrio para uma ventura
como aquela, j que dispunha de banheiro, cozinha, quartos e uma ampla varanda de 
onde se podia observar a baa a nossa frente.
      Combinamos a pescaria para a manh seguinte e fomos preparar a comida e logo 
percebemos nosso erro. A gua que tnhamos a nossa disposio vinha direto
do rio e, segundo meu irmo, naquela poca a regio de Baro de Melgao 
enfrentava uma epidemia de dengue.
      A soluo era ferver a gua e guard-la no garrafa plstica onde tnhamos levado 
nossa proviso. Nada disso nos abalou, porm. Estvamos ansiosos
e naquela noite mesmo arriscamos pescar ali da varanda, aps apanharmos alguns 
peixinhos com uma tarrafinha que encontramos por ali.
      Foram momentos de deslumbramento na escurido do rio, quando piranhas 
enormes avanavam, proporcionando-nos os primeiros momentos de emoo. A 
aproximao
dos jacars, cujos olhos cintilavam na noite, deu um toque local todo especial  
magia daquela nossa descoberta.
      Passava um pouco das dez quando, aps lanar minha isca, senti uma puxada 
diferente, muito mais intensa e, logo em seguida, um peixe se debatendo,
saltando na superfcie da gua. O corao quase saltou fora do peito, porque o peixe 
era bom de briga e resistiu bravamente, enquanto eu o guinchava para
a varanda.
       bom que se diga que guinchar  o termo exato, porque havamos comprado 
varas Marine NO EC-180 de 1,80 m, mas uma ponta enorme, que pouca ao 
proporcionava.
      Mas valeu assim mesmo. Eu acabava de pescar minha primeira piraputanga, 
peixe nobilssimo, segundo meu irmo.
      Fomos dormir tarde da noite, extenuados. Havamos levado repelente contra 
mosquitos e nem chegamos a sentir o problema. Talvez porque estivssemos
cansados demais.
      O amanhecer do dia seguinte foi uma das experincias mais emocionantes. 
Alm do barulho que faziam na gua e nas rvores, pssaros de todos os tipos
gritavam e faziam algazarra ao nosso redor.
      Saltamos da cama para apreciar esse espetculo  parte e tambm para sentirmos 
a grandiosidade do cenrio que nos cercava. Era magnfico, com gua
por todo lado e peixes que passavam despreocupadamente por entre os esteios do 
alojamento.
      Preparamos rapidamente nossa tralha, enquanto se fazia um caf e um lanche 
rpido. Z Floresta chegou algum tempo depois, trazendo nossas iscas, pequenos
caranguejos que serviriam para pegar pacu.
      Era esse o tipo de peixe que tnhamos em mente, pela sua combatividade e 
porque era o nico que conhecamos. Havia os dourados, os jas, os pintados,
uma poro de outras espcies que poderamos ter tentado fisgar, mas ramos 
totalmente inexperientes e somente pescamos apoitados, deixando toda a direo
do espetculo com o piloteiro.
      Como ele deve ter percebido que nada conhecamos, fez o mais fcil e que, 
dentro de nossa ignorncia, poderia ser a melhor experincia para ns. De
certa forma ele tinha razo. Trs pescadores inexperientes num barco, pescando de 
corrico, pode no ser uma boa idia.
      O barco foi apoitado prximo de uma corixo ou canal que desembocava na baa. 
No meio percebia-se a correnteza mais rpida e foi ali que arremessamos
nossas iscas.
      Usvamos caranquejos e, depois, goiaba. A fruta no oferece dificuldade para 
ser iscada. O caranguejo, no entanto, exige um pouco de tcnica que se
complica com aquelas garras oscilando de um lado para outro.
      A  preciso um pouco de prtica que logo aprendemos, muito embora eu tivesse 
preferido deixar o trabalho de iscar o anzol para o meu filho, que o
fazia com muita percia.
      No demorou muito e nosso piloteiro pegou o primeiro. Um pacu de 2 a 3 kg, 
que brigou bastante. Logo em seguida ns tambm acabamos pegando. A maioria
deles no dava o tamanho recomendado e era devolvido  gua. Meu irmo pegou 
um grande e esse foi levado para ser o nosso almoo naquele dia.
      Alm dos pacus, pescamos piranhas e um peixe estranho que mal pudemos 
perceber o que era e que simplesmente atacou uma isca artificial que meu filho
havia arriscado arremessar.
      O sol ardia sobre ns, num cu limpo e sem nuvens. Retornamos j satisfeitos 
naquele dia. Arriscamos soltar a isca artificial enquanto o barco rumava
para o nosso rancho, mas nada pegamos, pois no era uma colher e sim uma isca 
comum.
      Nosso piloteiro ficou de reunir mais iscas e de nos levar a um outro local onde, 
segundo ele, nos dias anteriores haviam sido apanhados pacus de bom
tamanho.
      O almoo foi excelente, com um cardpio de file de pacu frito, mais arroz e uma 
salada de batata, se no me engano. Queramos comer logo e voltar
 pesca, por isso logo estvamos novamente arremessando nossas iscas nas guas da 
baa, ao redor do alojamento, capturando principalmente piranhas, j
que usamos restos de pacu para isso.
      Z Floresta retornou mais tarde, com nova remessa de iscas e desta vez 
tomamos uma outra direo, avanando por um canal at sairmos numa outra baia.
A presena de galhos indicava o quando o nvel da gua estava acima do normal e, 
se tivssemos conhecimento na poca, teramos pedido para arriscar uns
arremessos ao redor daquela galharia.
      Fomos apoitar no local escolhido por nosso piloteiro, um outro brao de rio que 
se ligava a essa segunda baa, onde iscamos nossos anzis e recomeamos
a pescaria.
      O tempo estava mudando, no entanto. Nuvens escuras se ajuntavam ao longe, 
indicando que logo teramos chuva.
      - Passa logo - assegurou nosso piloteiro.
      A presso atmosfrica foi abaixando e, no demorou muito, estava chovendo a 
cntaros. O barco estava muito bem apoitado e o canal no oferecia, naquele
local, risco com a formao de ondas. Continuamos a pesca sob a chuva, mas 
nenhum de ns pegou alguma coisa.
      Pensei intimamente em desistir e ir embora, pois logo anoiteceria. Mas a cu 
estava limpando e a chuva passaria em breve. J que estvamos ali, no
custava aproveitar ao mximo o tempo e as oportunidades.
      To rpida como veio, a chuva passou e logo o sol saiu, j descambando para o 
poente. Recolhi a minha linha para conferir e descobri que, em algum
momento, um pacu havia me levado a isca. Pedi ao meu filho que iscasse outro 
caranguejo. Arremessei o mais longe que pude, bem no meio do canal. A linha
foi descendo, enquanto em me acomodava, logo aps o arremesso.
      Mal eu havia me sentado senti aquele toque inconfundvel na linha. Quando dei 
por mim, a vara estava descendo na direo da gua, pegando-me desprevenido.
Meu filho me alertou, mas eu j a havia firmado de novo e a puxava para cima, 
fisgando o que quer que estivesse do outro lado.
      - Regula a frico! - alertou o meu filho, pois a puxada fora brava.
      Abri um pouco mais a frico, providncia que se mostrou adequada porque, no 
momento seguinte, o carretel do molinete cantava alegremente, enquanto
o peixe tomava linha.
      -  dos grandes - falou o Z Floresta.
      - Cansa ele, pai! - recomendou meu filho.
      - No deixa ele ir para o barranco - avisou meu irmo.
      Eu nada ouvia alm do canto emocionante da carretilha, quando o peixe puxava. 
Quando ele dava uma trgua, eu recolhia, erguendo a ponta da vara.
      Estava usando uma linha 0,40 mm e o molinete era um Daiwa J2600X, ambos 
adequados, s que desproporcionais  vara curta e grossa. O peixe resistia
e eu temi pela linha, mas ela resistiu. Lentamente eu o fui trazendo para perto do 
barco. s vezes ele parecia cansado e cedia um pouco s para, em seguida,
arrancar novamente, fazendo o molinete cantar. Meu brao doa, pelo esforo at 
que, finalmente, eu o trouxe ao alcance do alicate.
      Quando o ergui, mal consegui sustentar seu peso, pelo brao cansado e porque 
meu peixe tinha quase sessenta centmetros de tamanho.
      Era simplesmente o maior peixe que eu havia pescado na vida, o mais briguento, 
o mais forte, o mais bonito e, tambm, o mais delicioso. Naquela noite
memorvel, comemos churrasco de costela de pacu assado na brasa e, confesso, foi 
a refeio mais gostosa de todas as que eu j comi na vida.
      Meu irmo se encarregou de limpar o peixe e de prepar-lo. Seguramente a 
pedida teria sido outra, se o gs no tivesse acabado naquela noite, obrigando-nos
a arrancar galhos secos das rvores para o churrasco, j que nosso piloteiro nos 
deixava no alojamento e desaparecia.
      No dia seguinte voltamos a pegar outros peixes. Meu filho fisgou um pintado de 
uns cinqenta centmetros, abaixo do tamanho recomendado, por isso
soltou-o.
      Aquele pacu ficou na lembrana como o primeiro peixe importante que eu 
peguei, como pescador esportivo. Poderamos ter aproveitado muito mais aquela
permanncia de trs dias naquela baa, mas, ainda assim, achamos que valeu a pena. 
Aquele pacu , ainda hoje, meu peixe inesquecvel.

A INFLUNCIA DA LUA

      Aps a leitura de alguns livros especializados, descobrimos que a Lua em nada 
influenciava uma pescaria. Segundo os estudiosos, no h base cientfica
nenhuma para se afirmar o contrrio. Assim, tanto faz pescar na Minguante, na 
Nova, na Crescente, na Cheia ou na mudana de uma para outra, porque os peixes
nada sabem sobre as fases da Lua.
      J era alguma coisa a nosso favor, pois se tivssemos de escolher a melhor lua, 
j estaramos com nossa pescaria comprometida.
      S que o Velho Nogueira, que nunca leu um livro cientfico sobre o assunto, no 
era da mesma opinio. Deu uma olhada para o alto, depois para as iscas
que estvamos preparando, sorriu com bondade e compreenso, como se fssemos 
os maiores ignorantes do mundo e saiu com essa:
      - Essa isca  para peixe da Lua Cheia... Estamos na Minguante. A isca tem que 
ser outra.
      Seu tom de voz foi suave, como se temesse nos ofender. Eu olhei para o meu 
filho, que olhou para mim e ambos nada entendemos daquilo tudo.
      - O que h de errado com estas iscas? - perguntei.
      - Serve para pegar peixe de escama e a lua  para peixe de couro - explicou ele, 
cheio de bondade.
      - E a lua regula alguma coisa? - indagou o meu filho.
      - Regula tudo, oras. No sabia?
      - Bem, eu andei lendo uns livros e...
      - J sei, eles falam que a lua no "infli" nada, no ?
      - Isso mesmo.
      - Tudo ignorante! - afirmou, convicto. - Para vocs terem uma idia, em mil 
novecentos e nada, veio uma turma de pescador de So Paulo aqui, para
pescar no Cuiab (Rio Cuiab). Era lua de peixe de couro e eles queriam pescar 
dourado e pacu. Eu avisei. Eles deram risada. Fui com eles, de piloteiro...
      - Quanto tempo faz isso mesmo? - eu quis saber.
      - Olhe, para falar a verdade, Getlio ainda estava no poder e ainda tinha muito 
peixe no Cuiab, aqui mesmo, dentro da cidade. Mas deixe isso para
l. Fomos para o rio, no meio da noite. Eles soltaram suas colheres (isca prpria 
para fisgar dourado, tendo o formato de uma colher para resvalar na gua
e dar a impresso de um peixe menor em fuga) e fomos rasgando as guas, mas 
nada de peixe. Uma hora paramos na beira do barranco e eles ficaram falando
do azar que estavam tendo. Nisso escutamos um barulho na gua, rio acima. "O 
que foi isso, Nogueira?" perguntou um deles. " o ja batendo", respondi
logo. " lua de peixe de couro", ajuntei. A eles resolveram experimentar e logo 
pegavam o primeiro ja de quase cinqenta quilos...
      - Cem quilos, seu Nogueira? - surpreendeu-se meu filho, que jamais acreditaria 
que havia peixes desse peso.
      - Dos pequenos - acrescentou o velho. - J peguei maior, muito maior, no 
espinhel, na faixa dos seus cem quilos - completou ele, com sabedoria e um
acento de saudade na voz ainda firme.
      Eu e meu filho deixamos de lado as iscas para pescar pacu que estvamos 
acondicionando numa embalagem plstica e nos sentamos  mesa com o velho.
Ele abriu a garrafa de cachaa e despejou um pouco no copo diante de mim.
      - Cachaa e pescaria,  do que mais gosto hoje - falou ele.
      Provei. Era da boa.
      - Seu Nogueira, conte para a gente como  que funciona esse negcio da lua - 
pedi.
      - No tem dificuldade - afirmou ele. - Se olhar para a Lua Cheia, voc se lembra 
logo de um peixe brilhante, com escamas. Pois  na Lua Cheia que
voc pega o pacu, a pirapitinga e at mesmo a piranha grande, aquela que d o 
melhor caldo.
      - Sendo assim, na Lua Minguante, escura, deve dar muito peixe de couro - 
arriscou meu filho.
      - Pois  isso mesmo - emendou o velho. - J pegou o jeito.
      - E o dourado, qual  a melhor Lua? - quis eu saber.
      - A do meio, entre a Nova e a Cheia.
      - No quarto crescente? - conclu.
      - Isso mesmo. Na Lua Cheia, voc pesca melhor os peixes que vivem mais perto 
da superfcie. Na Lua Minguante, os de couro e os do fundo, como os jas
e os pintados grandes. Na Lua Nova, os peixes de barba, como o surubim, o 
barbado, o bagre e o mandi. Na Lua Crescente, os peixes pequenos e os dourados
que vm atrs deles. s vezes isso varia de um lugar para o outro, por isso  bom 
voc conhecer as manhas do lugar...
      - E como funciona esse negcio de manha do lugar? - perguntei, interessado em 
melhorar meus conhecimentos sobre o fascinante assunto.
      - Conforme o lugar, os peixes de uma Lua aparece em outra e assim por diante. 
 s tentar as iscas e, assim que pegar,  s ver a lua e avanar a
tabela para saber o certo.
      Quando fomos dormir, naquela noite, amos como quem acaba de descobrir o 
segredo mais bem guardado do universo. Dona Jacira, mulher do Velho Nogueira,
quando nos viu passar, sorriu e emendou:
      - No acredita em nada do que esse velho diz.  mentiroso que s ele! Tudo isso 
a que ele fala  conversa de pescador.
      Havia um acento de maldade e satisfao no seu tom de voz. Coisa de mulher 
mesmo!

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Dezembro - 1999
